Mostrando postagens com marcador cultura afro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura afro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

2016 tá chato... e vai ficar mais ainda!



Este ano começou arrasando! E a galera do "mimimi" tá passando mal...

Em um mês e meio, já teve Oscar racista e alegação de racismo contra dos brancos (WTF)

Teve pai adotivo de criança negra que fantasiou o filho de macaquinho (ou como o "melhor amigo do Aladin", na inocência dele).

Teve pseudo artista  socialite chamando o cabelo afro de cantora negra de "Bombril".

Teve Diva/Deusa enfiando umas verdades goela abaixo de uma sociedade racista/machista em rede nacional E no evento mais importante da TV.

E, como sempre, teve os reclamões dizendo que o ano tá chato, que a galera tá com muito mimimi, que racismo está nos olhos de quem vê, que as feminazi estão enchendo o saco...

Para os reclamões, sinto informar que, infelizmente para vocês, a tendência é piorar.

Sabe por que? Porque as "minorias" estão percebendo que são na verdade a maioria e cansaram de tanta opressão, de ficar em segundo plano, de ter direitos desrespeitados.

Essas pessoas vão te tirar da zona de conforto, vão te mostrar que o sistema branco, hetero, religioso, machista e acolhedor que vocês sempre viveram está na corda bamba.

Você está com medo que os papéis se invertam e que você fique no lugar do oprimido? Acredite, é ruim mesmo assumir esse papel.

Minha sugestão é: crie empatia, se informe, questione seus privilégios, desconstrua.

Pode ficar tranquilo pois a partir do momento que você compreende e admite que o racismo existe, isso não quer dizer que você se tornará negro. Assim como você se tornar feminista (e não feminazi, termo mais ridículo) ou apoiar as causas LGBT não te fará menos homem ou menos hétero. Isso apenas te tornará um ser humano melhor ( e mais inteligente!).

Meu desejo para 2016 é que ele continue chatinho assim. Que incomode mais porque tá pouco!

E assistir um pouco mais minha diva/deusa nunca é demais!


segunda-feira, agosto 10, 2015

Sobre turbantes e apropriação cultural

Eu acompanho muitos sites, páginas e grupos no Facebook sobre militância afro e cabelo crespo. O fato é que ao se falar de cabelo crespo torna-se difícil não haver certa militância. Porque todas nós, crespas, sabemos como assumir um cabelo considerado "ruim", "de bombril", "feio", "desleixado"(entre outros tantos adjetivos que permeiam a nossa cultura racista) é um ato de rebeldia. 

Para muitas de nós, assumir o cabelo natural foi motivado por um fator estético no começo, mas com o tempo percebemos o peso político que ele tem. Estamos batendo de frente com o padrão eurocêntrico que existe em nossa sociedade racista.

Sim, nossa sociedade brasileira é ainda muito racista. É o tipo de sociedade que tenta de toda forma apagar as marcas de luta do povo negro. Podemos ver isso em discursos como "o sistema de cotas é a afirmação do próprio racismo", "se tem feriado para a consciência negra deveria ter para as outras raças", "negro vê racismo em tudo", etc (os próprios negros repetem isso). Ou a nossa atitude ao celebrar a representatividade quando não deveríamos nos surpreender ao ver negros bem sucedidos e ocupando espaço na mídia. 

Um dia desses, vi uma postagem de uma colega no Facebook indignada com um artigo de uma blogueira negra criticando os brancos que se apropriam da cultura afro usando turbantes como ícones de moda. Ela é estilista e achava ridículo o argumento de que só negros poderiam usar turbantes. Afinal, turbantes são usados por diversos povos, não só pelos povos africanos.

Ok, ela está certa em certo ponto. Povos do Oriente Médio e da Índia usam turbantes. Não povos brancos. Porém, assim como os ignorantes que não compreendem o porquê de o sistema de cotas ser importante para nós, ela não sabe porque hoje, no ano de 2015, com os avanços tecnológicos, nós, negros, voltamos a usar turbantes fora dos terreiros, fora das senzalas.

Deixa eu contar uma historinha que diz muito sobre o atual mimimi branco:

No final do século XVIII, os turbantes foram usados para tentar repreender mulheres de ascendência africana livres no estado de Louisiana, Estados Unidos. Naquela época a beleza, a maneira como elas arrumavam os cabelos naturais, a vestimenta e os bons modos que tinham atraíam bastante a atenção masculina e despertavam cada vez mais o ciúme das mulheres brancas. 

Como forma de “restabelecer a ordem”, o governador criou uma série de normas conhecidas como “Leis Tignon” por ter como principal determinação que mulheres afrodescendentes, livres ou não, passassem a usar o tignon (um tipo de turbante) para cobrir os cabelos. O que era para ser uma tentativa de fazer distinção de classes e desonra-las teve p efeito contrário: os turbantes viraram itens de beleza graças à criatividade e imaginação destas mulheres.

Eis que a história se repete aqui. Nos livramos da ditadura da chapinha e redescobrimos a beleza e a força dos nossos cabelos afro e dos turbantes. É revolucionário aceitar algo que na nossa cultura sempre foi considerado "inapropriado" ao ponto de fazer com que os próprios negros sentissem vergonha. Nós não fomos os únicos a ver beleza na africanidade. 

Cabelo crespo, turbantes, estampas e acessórios étnicos são tão lindos e legais que a indústria branca quis transformar em "moda" pois, sendo moda, qualquer um pode usar. E como toda moda, um dia deixa de ser cool para ser brega. Isso é uma forma de banalizar a nossa conquista. 

Essa imagem que achei no facebook pode resumir o que eu quero dizer. Enquanto os brancos acharem que podem usar turbante sem entender o significado que ele tem para a nossa identidade, para as nossas raízes, ele estará apenas usando um lenço amarrado na cabeça. A modinha vai passar para vocês. Nossa resistência permanecerá. 
 









segunda-feira, maio 25, 2015

Feira Afro em Londres



Desde antes eu ter desembarcado em Londres, meu namorado tinha me falado sobre uma feira de produtos afro chamada African Market. Ela acontece todo último sábado do mês (com exceção deste mês, por causa do Bank Holiday).

Ontem resolvemos dar uma conferida e posso dizer que valeu muito a pena!

Na feira, é possível adquirir diversos itens como acessórios, roupas, produtos de origem natural (óleos, manteigas, sabonetes, etc), bolsas, obras de arte, etc.






A vontade de comprar de tudo um pouco era grande, então precisei me controlar. Estava mais interessada em comprar acessórios como turbantes, brincos ou colares. Infelizmente, os produtos eram "caros" (fazendo a conversão de libras em reais), mas valiam muito a pena pela qualidade e pelo trabalho dos artesãos.

Eu acabei comprando uma faixa com estampa étnica linda e a dona da loja fez a amarração para mim. Além de lindíssima com suas tranças azuis, ela era super simpática e acabou me dando uma faixa que eu também havia gostado de presente! 




A faixa ajudou a destacar o meu black, pois, depois disso, as outras expositoras me chamavam para elogiar meu cabelo e perguntar o que eu fazia nele. Isso me deixou muito feliz, pois ultimamente eu tenho andado descontente com o meu cabelo e receber elogios ajudou a melhorar minha auto-estima. 

Além disso, notei como a troca de informações sobre cabelo afro é importante. Para quem não tem cabelo afro fica difícil entender porque a transição e o processo de aceitação é tão importante para nós, mulheres negras. Foram séculos de opressão ao cabelo crespo. Agora estamos nos redescobrindo e aprendendo como lidar com o nosso tipo de cabelo. Cabelo crespo não tem padrão em relação a cuidados. 

Segue o link de algumas expositoras das quais pude conversar na feira:

Afrocentric
https://www.etsy.com/shop/afrocentric805
Facebook: https://www.facebook.com/Afrocentric805?fref=ts
Insta: afrocentric805

Kitenge
www.kitengestore.com
Facebook: kitengestore
Twitter: @kitengestore
Insta: Kitenge.Store

Boa Collections
Insta: boacollections

Artsfro
www.artsfro.myshopify.com

Bold Stitch Handmade
Facebook: bold sitch Handmade

Jek Kah
www.jekkah.com


quarta-feira, novembro 26, 2014

Ser negra

Momento desabafo.

Porque eu sinto que preciso desabafar. Não sei se outras garotas que passaram por esse processo de afirmação da etnia passaram pelo que passei. Até hoje nunca li a respeito nessas minhas buscas por informações sobre a fase de transição, nessa fase de assumir o cabelo natural. A troca de informações é sempre em relação a produtos, acessórios, técnicas... mas, e a parte social?

Um blog que tem mostrado essa consciência é o Meninas Black Power, com muitos questionamentos sobre toda a questão social que envolve ser negro. Quem é negro sabe que muitas vezes não é fácil. Fomos e continuaremos sendo boicotados em diversos aspectos. E quando começamos a conquistar ou reivindicar o nosso espaço, incomodamos. É e será assim em relação às políticas de cotas; é e será assim em relação ao mercado de trabalho, é  e será assim em relação à padrões estéticos. 

Agora que estou com o cabelo completamente crespo, parece que de fato me tornei negra. Parece loucura e idiotice chegar a essa conclusão, já que ser negro é uma coisa meio óbvia. Quem olhar pra mim verá que sou negra. Mas a diferença está em ser uma negra tentando negar a sua identidade, ou ser uma negra com o "kit completo". 

Do que estou falando, afinal?

Bom... um exemplo que posso usar é como se olha para a Beyoncé e para a irmã dela, Solange. As duas são negras, mas quem causa mais impacto? Arriscaria dizer: quem é mais negra?

Loucura, né? Sei que estou viajando... mas tudo isso é pra chegar a um ponto.

Antes do BC, não havia problema nenhum me chamar de "nega". Esse é um tratamento carinhoso que se tem hoje em dia entre brancos, negros, ruivos, amarelos... Mas agora que sou uma "negra com kit completo", parece que me chamar de "nega" se torna um insulto! 

Isso aconteceu com um amigo, que sempre me tratou assim. Após o big chop, a forma de tratamento mudou... passei a ser apenas "Aline". Às vezes, ele tentava soltar um "nega" pra mim, mas logo hesitava. E isso me irritava profundamente, principalmente por ele sempre ter levantado a bandeira de que admirava os negros, que achava linda as negras com seus crespos, black power...  (de tanto ouvir discursos assim eu fico com um pé atrás de pessoas que falam isso). O fim da história é que nesse pouco tempo ele foi se afastando de mim até que a nossa amizade acabou por completo. Se foi  este exatamente o motivo eu não sei, mas sinto que isso contribuiu bastante.

Outras atitudes das pessoas que me incomodaram: por eu ter assumido o meu crespo e por estar feliz, radiante, com a auto estima lá em cima, eu me tornei uma negra metida. Porque negro com vaidade é metido. Negro não pode ter vaidade e autoestima elevada. Negro tem que ficar escondido, no seu cantinho, sem chamar a atenção. 

Já tinha visto isso acontecendo com outras pessoas, de ouvir comentários do tipo: "Nossa, ela se acha. Se ainda fosse loira, dos olhos claros, tudo bem!" Senti isso na pele dentro da minha própria casa! Eu tive uma criação antiga, onde os meus pais foram ensinados que o negro tem que se acostumar com o que for oferecido e não buscar melhorias. Mas, se eu consegui evoluir um pouco o pensamento, por que outras pessoas dentro de casa não?

Esse é o outro lado da moeda em se fazer a transição. É claro que os prós são infinitamente maiores que os contras. E isso não me fará voltar atrás.